domingo, 24 de maio de 2009

RESTAURO, ATÉ ONDE PODEMOS INTERVIR?



“É melhor prevenir, do que remediar”.

Este ditado, tão popular, aplica-se como uma luva no que se refere ao trabalho de restauro. Observa-se em documentos, entrevistas, notícias e artigos o quanto é polêmica a decisão de restaurar um patrimônio cultural; seja ele uma pintura, uma escultura, um monumento ou um edifício histórico. Este problema se apresenta no dia-a-dia do restaurador, que tem que decidir, juntamente com as partes envolvidas (cliente, Órgão Público responsável, comunidade e outros), que caminho seguir, para que o restauro não seja confundido com uma reforma.

Esta tomada de decisão, embora dependa da experiência do profissional, tem um embasamento teórico e muitas vezes consolidado na prática, permitindo a utilização de uma referência segura para a operacionalização do restauro. Esse embasamento teórico está, muitas vezes, lastreado no estudo de acervos documentais existentes nos países que já se dedicam ao restauro e conservação do seu patrimônio histórico e cultural, a exemplo da Itália, onde há uma convivência cotidiana da população com obras de arte.

Os limites da intervenção são, na maioria das situações, muito tênues sendo necessária uma interatividade bastante cuidadosa para que o resultado do trabalho seja coerente com as expectativas e com a ética que o envolve.

Nesse sentido, o objetivo deste artigo é apresentar alguns conceitos que norteiam o trabalho do restaurador e os limites de sua intervenção sobre as obras a serem restauradas.

Sabe-se que um patrimônio cultural existe e é reconhecido pelo seu valor histórico, e é essa historicidade que deve ser repassada para as gerações futuras. Dessa forma, o trabalho de conservação e manutenção é fundamental para que o restauro seja o último recurso para salvaguardar esse patrimônio. Quanto mais um povo for educado e conscientizado sobre o valor de uma obra, mais tempo ela terá de sobrevida.

As entidades públicas e privadas, responsáveis por esses bens, vêm progredindo nesse entendimento ao longo da história, estabelecendo seus próprios procedimentos técnicos, através de normas e meios de controle, a serem seguidos pelos profissionais envolvidos.

Inicialmente, há que se reconhecer que cada caso é sempre um caso particular e assim deve ser tratado. Os métodos podem estar descritos minuciosamente, desde os mais simples, como por exemplo uma limpeza, até os mais sofisticados, onde o resgate a ser feito depende de intervenções maiores, como preenchimento de partes faltantes ou até mesmo reestruturação de todo um conjunto arquitetônico de valor patrimonial, incluindo seu entorno.

A ética que envolve este trabalho é bastante clara: o resultado de um bom restauro deve devolver à obra seu estado original, ou o mais próximo disso possível, o que faz com que as intervenções devam ser praticamente imperceptíveis. O restaurador não deve se apoderar da obra, recriá-la ou modificá-la ao seu gosto ou a um estilo. Ao contrário, esse profissional deve pesquisar profundamente sua história, seu contexto, materiais, documentando todas as informações para assim justificar um limite de intervenção. Um restauro jamais deverá chegar à matéria-prima da qual a obra é constituída, por exemplo: numa pintura, a prospecção deverá reconhecer todas as camadas da qual foi composta, através de RX, infra-vermelho e outras tecnologias disponíveis, para que sua reconstituição, quando necessária, possa ser efetuada com os materiais, os mais similares possíveis e, ainda assim, reversíveis, para que no futuro, outras intervenções de restauro possam se viabilizar.

Por outro lado, tendo em vista que cada caso é um caso, pode ocorrer de a restauração restabelecer o estado de origem da obra, como ocorreu no famoso caso do auto-retrato de juventude, datado de 1634, pintado por Rembrandt, que foi vendido pela Sotheby por 12 milhões de euros em 2003. Nesse caso, o proprietário do quadro, antes da venda, optou por restaurá-lo de modo que se chegasse às suas características de origem. E, por trás do retrato de um homem de rosto aristocrático, chapéu de veludo vermelho, longos bigodes e cabelos, estava o rosto do próprio artista, de cabelos encaracolados, usando uma boina. Os adereços que tinham sido colocados por um aluno de Rembrandt para tornar a obra ao gosto do século XVIII foram retirados e a obra retornou seu estado original. Nessa restauração, não se afetou a autenticidade da obra, pois se restaurou seu estado original através de um cuidadoso processo de recuperação da figura que realmente fora pintada, ao contrário de um restauro em que se busca, através de uma pintura nova, o avivamento de partes já desgastadas.
E, dentro do contexto em que o restauro se dá, também há a necessidade de se atentar para o conflito que surge entre os interesses comerciais e os dos museus, pois, para os primeiros, o restauro deve ser feito para valorizar o objeto, enquanto que para os segundos, o restauro deve se preocupar com a historicidade da obra, atuando com a observância da estabilidade, da visibilidade e reversibilidade.

Vale ressaltar outro exemplo, bastante ilustrativo em relação a essa fronteira perigosa de até onde chegar com este trabalho; que é o caso dos sítios arqueológicos, que, quando descobertos , dependendo do seu estado de conservação, só deverão ser cuidadosamente documentados e re-enterrados para que não se transformem numa falsa ruína, provavelmente sustentada por materiais totalmente adversos àqueles dos quais se originaram.
Os exemplos são muitos e eles servem sim, para nortear esses trabalhos.
Uma das Cartas de Restauro da Itália (Ministério de Instrução Publica – 1972) afirma: “uma interferência deve parar onde começa a hipótese”, o que pode ser interpretado de várias formas, pois cada um poderá delimitar certeza-hipótese de forma relativa a si próprio ou ao seu contexto, e a questão essencial estará lá, com todo o peso da tomada de decisão e suas conseqüências: “até onde é válido intervir”?

Autores:
Maria Isabel Lima Craveiro
Fernando Silva dos Santos

PUC/SP- Conservação e Restauro Nov 2008



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