sexta-feira, 29 de maio de 2009

Turismo e Patrimônio: amigos ou inimigos?


O texto abaixo foi escrito por Julio Moraes conservador-restaurador, prof. do curso de graduação em Conservação e Restauro da PUC/SP, para ser apresentado no evento realizado em Santos no Dia Internacional dos Museus , sobre o tema Patrimônio e Turismo.


TURISMO E PATRIMÔNIO: AMIGOS OU INIMIGOS?

Longe de pretender analisar a fundo questão tão ampla e complicada como é a relação entre o turismo e o patrimônio cultural, limito-me a apenas a expor algumas observações e a examinar alguns exemplos, esperando que sugiram alguns caminhos de reflexão sobre o paradoxo desta suposta democratização do acesso aos bens culturais, que os promove e os destrói na sua essência.
Todas as estatísticas especializadas indicam que a indústria do
turismo é a atividade econômica que mais cresce no mundo. Na era da globalização e da mobilidade, a cada ano vários milhões de pessoas conhecem ou revêem outros lugares do mundo, circulando cada vez com mais facilidade. Muitos países beneficiam-se deste trânsito fácil, criam-se milhares de empregos, lugares decaídos reerguem-se graças à presença dos turistas.

Não há que negar: também o patrimônio cultural se beneficia do turismo. Centros históricos e monumentos são conservados e restaurados, fundam-se novos museus e remodelam-se os antigos; livros e DVDs são editados para a sua difusão, e até o patrimônio imaterial é revalorizado, para apresentar ao turista festejos, rituais, artes tradicionais e, é claro, as melhores tradições gastronômicas de cada lugar. Democratiza-se a cultura por meio do chamado turismo cultural, que tanto pode levar o turista a lugares como a Capela Sistina, referência mundial de erudição e arte, como a Maranello, onde se fabricam os automóveis Ferrari, famosos pelo seu design e performance.

Mas, se por um lado podem-se ver claramente muitos benefícios trazidos pela maior atenção aos bens culturais, que passam a ter lucros diretos trazidos pelos turistas e a ser fonte de renda que garante a sobrevivência de milhares de pessoas, por outro o patrimônio cultural de cada lugar e país é diretamente afetado, de múltiplas formas, pelo contato com um número cada vez maior de pessoas vindas de outros lugares, com diferentes interesses e expectativas. Observam-se ai alguns pontos de incompatibilidade e até de conflito entre a promoção do turismo e a preservação do patrimônio cultural.

O primeiro descompasso entre crescimento do turismo e preservação do patrimônio cultural é mais visível quanto mais importante for um centro de cultura e arte: enquanto os meios de transporte de longa distância e a indústria do turismo rapidamente se tornam mais e mais eficientes, e o afluxo de turistas aumenta rapidamente, o patrimônio não tem como aumentar à mesma razão o seu tamanho e a sua capacidade de absorção deste público (embora teoricamente o patrimônio deva aumentar, mediante a preservação do já existente e a incorporação de novos produtos da atividade humana, aos quais dada sociedade ou comunidade atribua valor, mas este crescimento).

De fato, a habilitação dos sítios históricos e artísticos para suportar este número maior de frequentadores, além de ser limitada em velocidade e em capacidade pelas próprias características do lugar e do seu conteúdo, normalmente depende da ação estatal. Esta, por mais dedicada que seja, nunca dispõe dos recursos nem da agilidade do empreendimento da chamada indústria do turismo. O resultado é o acelerado desgaste físico destes mesmos bens, expostos ao contato com mais pessoas do que podem suportar, e a atitudes e comportamentos agressivos, mesmo que involutariamente.

O segundo ponto de conflito não é quantitativo, mas qualitativo, e no meu entender ainda mais grave: para além da deterioração material provocada pelo interesse comercial com objetivos imediatos, ocorre também a grave alteração dos valores e conteúdos intrínsecos adquiridos ou atribuídos pelo meio sócio-cultural em que aqueles bens culturais se originaram e vicejaram, reduzindo e até exterminando a função primordial de afirmação e reforço da identidade da sociedade que os produziu e/ou preserva. Assim, implanta-se uma irresistível deturpação e perda da identidade primitiva de cada local e cultura, trocada por uma nova identidade, de uma população que troca as suas atividades primitivas pelas novas atividades voltadas ao turismo.

São conseqüências mais que duvidosas quanto aos benefícios que o turismo pode proporcionar ao patrimônio, que fora erguido lentamente sobre as antigas atividades, acompanhando a evolução da cultura e identidade locais ou nacionais, e deve agora se adaptar a novos usos. Igrejas, bairros tradicionais e centros históricos inteiros se transformam em verdadeiros shopping centers e nunca mais serão os mesmos; e às vezes pouco a pouco, outras vezes com incrível rapidez tornam-se tristes simulacros, caricaturas do que foram um dia. Perdem a alma, trocada por uma identidade local construída, falsa, que reforça continuamente a destruição daquela mesma identidade.

Tal perda (ou mudança) brutal de identidade e a inegável perda de autenticidade devido ao turismo faz lembrar o famoso trecho de John Ruskin, que no século XIX clamava contra as restaurações excessivas e descaracterizadoras da época, que a seu ver destruíam a autenticidade do monumento histórico ou arquitetônico: “nem pelo público, nem por aqueles que são responsáveis pelos monumentos públicos, o verdadeiro sentido da palavra restauração é entendido. Significa a mais total destruição que um edifício pode sofrer: uma destruição após a qual nenhum remanescente pode ser reunido; uma destruição acompanhada de uma falsa descrição do objeto destruído.” Mais de um século depois, o que vemos é exatamente isso: uma falsa descrição do patrimônio, sendo apresentada ao turista.
Artesanato de veneza

Assim, o terceiro ponto de conflito diz respeito ao patrimônio cultural,
ao seu parceiro, o turismo, mas sobretudo diz respeito diretamente ao cliente de ambos, o turista, que é enganado, e ao invés de conhecer algo daquilo que supõe estar conhecendo, é miseravelmente lesado e compra gato por lebre. Não capta nem leva consigo nada do espírito nem da arte de Michelângelo quando sai da Capela Sistina, e nem da ciência do design quando sai de Maranello. Leva apenas aparências, sob a forma de fotografias apressadas, e falsificações da pior espécie sob a forma de souvenirs bisonhos feitos apenas para ele – vide os cacarecos de pedra-sabão vendidos às portas das maravilhosas igrejas de Ouro Preto, que não existiam antes dos turistas, e nunca fizeram parte da vida cotidiana, doméstica dos ouro-pretanos. Não aprende nada, apenas ganha um verniz de conhecimento, que logo se descasca porque aquele conhecimento foi incompleto e mal ensinado por bens culturais já desprovidos do poder que só é dado pela autenticidade e integridade.

Ampliando este fenômeno à escala mundial, tal como tem sido ampliado o próprio turismo, teremos à vista a destruição da diversidade cultural do mundo, em que os únicos conteúdos exóticos vistos com calma e realmente assimilados serão aqueles veiculados pela publicidade, nos shoppings e na televisão a cabo.

Concluímos dai que a suposta relação “de amizade” entre turismo e patrimônio corre os mesmos riscos de qualquer amizade: até amigos sinceros, com as melhores intenções, podem se prejudicar mutuamente.

Esta situação aparentemente catastrófica e insolúvel pode conduzir a nós, que nos interessamos e preocupamos com o patrimônio cultural, à proposta radical de separar turismo e patrimônio. Mas, evitemos o ímpeto de propor algo comparável à atitude exagerada de Ruskin, que propunha que simplesmente não se restaurasse mais nada e se deixasse o monumento morrer. Não vamos propor o fim puro e simples do turismo cultural (o que de resto não lograríamos jamais), até porque, usando uma expressão caipira, não adianta matar a vaca para acabar com o carrapato. Há que buscar soluções, lembrando que as restaurações que destruíam o patrimônio se adequaram, portanto pode-se ter esperança de que o turismo faça o mesmo. Quais as soluções? Não sei, mas talvez possamos começar conversando francamente com o turismo, como fazem os bons amigos.

Julio Moraes – conservador-restaurador de bens culturais

Santos, 23 de maio de 2009

Nenhum comentário: