Por Flávia Martins y Miguel, jornal "O Tempo"
Segundo pesquisa da Universidade de Viçosa, cupins e carunchos tomaram conta de 100% dos monumentos da cidade de Ouro Preto. Se nada for feito, segundo especialista, acervo pode se perder em 20 anos
As esculturas, igrejas e imagens do barroco mineiro, representado por obras de mestres como Manuel da Costa Ataíde e Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, correm o sério risco de, em poucas décadas, ficarem apenas na memória. Ávidos por madeira, cupins e carunchos tomaram conta de 100% das edificações históricas de Ouro Preto.
É o que diz um estudo do chefe do Departamento de Biologia Animal da Universidade de Viçosa (UFV), especialista em manejo de pragas florestais, o professor Norivaldo dos Anjos. Há quase 20 anos, ele estuda igrejas de todo o país e identificou o perigo na totalidade dos monumentos em Ouro Preto.
"Fizemos vários levantamentos em todas as edificações, e todas as amostragens dos monumentos, igrejas e obras apresentavam a existência de insetos xilófagos. Ou seja, cupins e carunchos", concluiu o especialista.
Com a conclusão dos estudos, o prognóstico sobre o futuro dessas riquezas históricas é assustador. De acordo com o professor, a ação desses insetos pode acabar com o acervo em menos de duas décadas. "Eu diria que se nada for feito dentro de 10 ou 20 anos, toda a memória vai virar matéria orgânica. Começa a cair porque, infelizmente, o suporte de madeira, telhados e das imagens vai ficar totalmente fragilizado", explica o especialista, que trabalhou junto com alunos da Fundação de Arte de Ouro Preto.
Os problemas não acometem apenas a cidade, que, em 1980, foi considerada pela Unesco como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. O estudo da UFV também encontrou cupins e carunchos nos monumentos de Mariana, São João Del Rei, Tiradentes e Congonhas. "Nas principais cidades históricas a situação é completamente semelhante. E em outras partes do Brasil também, como no Pelourinho, em Salvador. É um problema nacional", afirmou dos Anjos.
A resolução para acabar com as pragas é simples. No entanto, são necessários suporte tecnológico e decisões eficazes por parte das arquidioceses e do poder público. "Tem que ser feito um trabalho globalizado com a participação de todos. E alocar os recursos em lugares que realmente necessitam e são importantes. Não se pode tratar todos os monumentos de uma vez, pingando o dinheiro nas milhares de obras e monumentos que existem em Minas", criticou o especialista.
As infiltrações no solo e o vai-e-vem de veículos pesados que circulam a poucos metros da Igreja Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Santa Rita Durão, em Mariana, podem ter contribuído para entortar o monumento histórico do século XVIII. Com um acervo rico em obras de Aleijadinho, púlpitos e pinturas decorativas, o local pede intervenções imediatas.
No mês passado, um grupo formado por bombeiros, Ministério Público Estadual, arquidiocese de Mariana e os Institutos do Patrimônio Histórico e Artístico estadual (Iepha) e federal (Iphan) fizeram uma vistoria na igreja para analisar a necessidade de uma interdição e quais ações serão colocadas em prática.
A chefe do escritório técnico do Iphan em Mariana, Laura Rennó, afirma que foi comprovado um leve declive da edificação. No entanto, medidas devem ser tomadas para criar alternativas para os veículos do entorno da área tombada pelo patrimônio. "Chegamos a comentar a possibilidade de fazer uma alça para retirar os caminhões e ônibus dali. Não é que a igreja vá cair amanhã, mas lá é o caso mais preocupante no momento", afirmou.
Imunização
Etapas. Depois da descupinização que mata, além dos insetos, as larvas e os ovos, é necessário imunizar a madeira. O processo trata quimicamente as peças para evitar novos ataques
Projeto importado da Europa
As igrejas Nossa Senhora do Rosário, em Mariana, Bom Jesus do Matozinhos, em Piranga, Nossa Senhora da Lapa, em Sabará, e a capela de Santana, em Lagoa Santa, são as quatro primeiras a serem contempladas em Minas com o projeto Igreja Segura. Trata-se de uma iniciativa inédita no país, trazida de Portugal, que pretende restaurar os monumentos históricos e combater os roubos de imagens e objetos de arte.
No país europeu, o projeto foi premiado recentemente e acabou sendo importado pelo Brasil por meio de uma parceria entre o Ministério Público Estadual, Iphan, arquidiocese e municípios. O objetivo é devolver as igrejas restauradas ao público em um prazo de dois anos.
De acordo com o coordenador da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico de Minas Gerais, Marcos Paulo de Souza Miranda, o país lusitano encara os mesmos problemas de roubos de peças e a falta de conservação das igrejas. “Fizemos um congresso em Ouro Preto e tivemos a presença da coordenadora portuguesa Leonor de Sá, que trouxe a experiência do que fazem lá. Isso foi fundamental para darmos a partida”, disse o promotor.
Os diagnósticos sobre cada uma das quatro igrejas estão em processo de finalização. O custo de todas as obras ainda não foi fechado em virtude da conclusão dos laudos de vistoria. “Através de parcerias, lei de incentivo à cultura e do próprio Estado, vamos colocar isso em prática. É um projeto que precisa de uma análise detalhada para resolvermos o problema”, contou.
Fonte: jornal O Tempo
Publicado em: 05/09/2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009
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